Negócios

Estruturas de plataforma e o futuro dos negocios

Estruturas de plataforma e o futuro dos negócios

Por Gabrielle Ribon*

É provável que você tenha notado uma mudança significativa na forma de interagirmos bens e serviços após o uso expansivo da tecnologia nos últimos anos, em todas as áreas da nossa vida. Pode ser que você tenha chamado um carro de aplicativo para ir ao trabalho, enquanto assistia um vídeo na rede social; ou tenha planejado utilizar um serviço de aluguel por hospedagem nas próximas férias, enquanto ouvia música por streaming . A semelhança entre esses serviços e empresas é a utilização de uma estrutura de plataforma em seu negócio.

Constantemente vemos negócios e empresas tradicionais serem substituídos, ou se tornarem, estruturas de plataforma. Como explica um artigo publicado em 2019 pela revista European Business Organisation Law Review , as plataformas facilitam o intercâmbio de informações e a conexão das pessoas, e podem ser o caminho inevitável para que empresas sobrevivam e prosperem num futuro próximo.

Para explicar melhor essa ideia, é importante fazer um recorte sobre a diferença dos modelos governança vigentes, ou seja, definir o que chamamos de “tradicional” e o que é a “plataforma”. Quando pensamos em empresas tradicionais, temos em mente uma estrutura centralizada de administração, com hierarquia e departamentos bem estabelecidos e diferenciados, procedimentos padronizados e uma visível separação entre o que é a empresa e o que é o “mundo exterior”.

As plataformas, por outro lado, tendem utilizar novas tecnologias para facilitar transações, trocar informações ou conectar pessoas, proporcionando uma reorganização interna que facilite e incentive a colaboração entre usuários e partes interessadas, proporcionando uma inovação constante e desengessada das funcionalidades e produtos oferecidos. Além disso, os modelos de negócio geralmente são descentralizados, em um cenário em que intermediários podem ser substituídos ou retirados da equação.

A noção de centralização e hierarquia também se torna maleável, e o foco está na criação de um ambiente organizacional amplo, aberto e inclusivo, que aproveite o talento de todas as partes interessadas. Para isso, as empresas de plataforma também precisam de uma comunidade engajada e conectada, que desaguam no chamado consumo colaborativo, no qual ao mesmo tempo o usuário (e cliente) alimenta a plataforma e consome os produtos e serviços gerados nela. Em resumo, cria-se não mais uma empresa, mas um ecossistema próprio.

Quando se está utilizando o Instagram ou o Facebook, por exemplo, você faz uploads de fotos e vídeos, ou escreve um post para compartilhar com a sua rede. Nessa etapa, você alimentou a plataforma com informações, ainda que muito rotineiras e sem valor comercial, a princípio. Apenas seus amigos e familiares vão ver, entrar e gostar do seu final de semana com seu cachorro. Enquanto entra para conferir os “likes” e comentários, você também vê fotos e postagens de outras pessoas, onde interage com mais likes e comentários. O tempo que passou nesse ambiente virtual, você consumiu conteúdo e o produziu, além de considerar comprar produtos via Facebook Marketplace, ver propagandas remuneradas no Instagram e colaborar para as métricas de remuneração dos criadores profissionais da plataforma. Estabeleceu-se, aqui, o ciclo completo da plataforma.

Como é de se esperar de toda novidade, essa estrutura de plataforma encontra seus próprios desafios. Conforme as empresas crescem, por exemplo, o próprio mercado e a regulamentação exigem modelos mais fixos e engessados de administração; o engajamento de funcionários e partes interessadas é constante, instável e sem espaço para zona de conforto; a própria legislação, seja ela tributária ou empresarial, tem dificuldade de se adaptar aos novos modelos de empresa, fazendo com que, muitas vezes, esses negócios trabalhem à margem da lei, se apoiando em omissões, interpretações arriscadas e que podem acabar com o trabalho de anos com uma simples decisão judicial mais ortodoxa.

Mesmo com os desafios citados, é muito provável que a cultura de plataforma não tenha mais ponto de retorno. Cabe, portanto, às empresas, olhar sem medo para essa nova estrutura e pensar estratégias para que a plataformização coletiva dos negócios seja possível e crie um marco para desenvolvimento de um novo mercado do futuro.

*Gabrielle Ribon é advogada e entusiasta de inovação. Mestranda em Inovação e Empreendedorismo pela Universidade de Edimburgo, atua no mercado financeiro com foco em novos produtos e tecnologias. É especialista em Creative Technologies pela Miami Ad School e LL.M em Direito Tributário pelo Insper.