Para quem são os “carros voadores”

Para quem são os “carros voadores”

O mercado dos eVTOLs, os veículos elétricos de decolagem e pouso vertical, está decolando e é importante que o Brasil não perca a oportunidade de inserir de forma escalável e segura esse modal às cidades

Por Emerson Granemann*

O setor de Mobilidade Aérea Avançada, como tecnicamente é conhecido o mercado dos “carros voadores”, está prestes a decolar e movimentar bilhões de dólares pelos próximos anos. No mundo há mais de 800 programas de eVTOLs, os veículos elétricos de decolagem e pouso vertical, dos mais variados modelos e em desenvolvimento por cerca de 350 empresas, segundo dados da The Vertical Flight Society.

Apesar dos números vultuosos, uma parcela pequena que conseguiu avançar seus projetos e está recebendo recursos de investidores privados — e até do poder público em programas de tecnologia e sustentabilidade. Em breve veremos os eVTOLs de aproximadamente 30 empresas tomarem os céus e de fato operarem de forma comercial em todo o mundo. Na China, por exemplo, uma desenvolvedora já obteve certificação para voos com passageiros.

Para avançar com esse mercado, mais de 10 bilhões de dólares de Venture Capital já foram destinados a esses projetos, sem contar que algumas empresas já estão listadas em Bolsas de Valores. Um reflexo do perfil dessas companhias, geralmente startups criadas com o propósito específico de fabricar eVTOLs. Mas as principais fabricantes de aviões também entraram na onda. A Embraer criou a Eve Air Mobility, a Boeing adquiriu a Wisk Aero e a Airbus está desenvolvendo internamente seu eVTOL. Sem contar a indústria automobilística que tenta voar também como Volkswagen, Hyundai, Honda e outras.

Há um frenesi generalizado em torno dessas aeronaves, mas ainda não se sabe ao certo como será a operação no dia a dia, pois como se trata de futuro e de uma nova tecnologia, a cautela tem sido prioridade. Do que já foi testado e divulgado ao redor do mundo, os eVTOLs serão usados para completar a cadeia de mobilidade nas cidades. Eles poderão, por exemplo, conectar em poucos minutos aeroportos de uma mesma região, como Congonhas, Campo de Marte e Guarulhos, ou Jacarepaguá, Santos Dumont e Galeão. Ou conectar esses aeroportos a vertiportos — os novos pontos de pouso e decolagem — aos bairros. Quem sabe será possível comprar uma passagem apenas que vá do Morumbi, em São Paulo, para a praia de Jurerê, em Florianópolis. Claro, com os devidos voos de avião entre os aeroportos.

Mesmo com a promessa de “democratizar” o acesso, é de se supor que primeiro embarcarão nessa as pessoas com mais recursos financeiros, que já utilizam helicópteros, por exemplo. A ideia das fabricantes e operadoras é ampliar esse público à medida que se vá ganhando escala, confiando em um custo mais baixo de operação quando comparado com helicópteros, a começar pelo fato de que os eVTOLs são elétricos, o que tende a ser mais barato que o combustível tradicional. Mas isso é pensando em um início de operação em 2025 e crescendo gradualmente pelos próximos 10 a 15 anos.

Espera-se que esse cenário se confirme e que tenhamos uma proliferação de vertiportos em condomínios residenciais e comerciais, bem como em pontos estratégicos para conectar cidades separadas por até 100 quilômetros, como São Paulo a Campinas.

Para não perder essa oportunidade, o Brasil precisa ainda resolver alguns aspectos, especialmente regulatórios e de certificação dos eVTOLs. É preciso nesse momento envolver poder público, empresas e sociedade para debater de forma aprofundada para possamos gerar um ecossistema de mobilidade aérea escalável, acessível, sustentável e seguro.

*Emerson Granemann é CEO da MundoGEO e idealizador do Expo eVTOL, primeira feira do Brasil dedicada aos “carros voadores”.