Em feito inédito, cientistas brasileiros conseguem rejuvenescer neurônios humanos

Em feito inédito, cientistas brasileiros conseguem rejuvenescer neurônios humanos

Em estudos realizados no Canadá, medicamento da startup Aptah Bio recuperou célula doente em paciente de Alzheimer

Molécula desenvolvida pela startup brasileira Aptah Bio conseguiu rejuvenescer neurônios humanos. Resultado inédito usou terapias de RNA para reverter o envelhecimento de células do sistema nervoso central. Os testes, realizados no Canadá, foram feitos com neurônios de pacientes idosos saudáveis e com Alzheimer. Nos dois casos, o medicamento recuperou as funções neurológicas comprometidas pela idade ou doença.

À medida que envelhecemos, ocorrem rupturas nas fitas do nosso DNA, criando uma espécie de cicatriz no código genético. Isso significa que, quanto mais avançamos na idade, mais cicatrizes vão se formando, comprometendo, assim, o processo de transformação do código do DNA nas diferentes proteínas que formam as nossas células. Isso faz com que o nosso corpo comece a produzir proteínas de maneira inadequada. E são justamente essas proteínas tóxicas que geram doenças esporádicas, como câncer e Alzheimer. “Pesquisas comprovam que, conforme envelhecemos, perdemos o equilíbrio entre os mRNAs longos e curtos. Isso acontece no corpo inteiro e em várias espécies”, explica Rafael Bottos, CEO e cofundador da Aptah Bio, startup de biotecnologia focada em novas terapias de RNA. “A ciência já havia provado e também constatamos dentro do nosso estudo, que pessoas mais velhas têm um número proporcionalmente maior de RNAs curtos no organismo, induzido pela contínua e maior frequente quebra de RNAs longos, motivo pelo qual envelhecemos e desenvolvemos doenças”. Ele acrescenta ainda que, além do avanço da idade, hábitos como o tabagismo, exposição ao sol e uso de drogas ilícitas também aceleram esse processo. 

A Aptah criou o primeiro composto que consegue restaurar o equilíbrio do tamanho dos mRNAs nas células na produção de todas as proteínas. “Isso é inédito na ciência. Hoje, temos medicamentos que revertem esse encurtamento em proteínas específicas. O nosso medicamento regula e controla a produção de todas as proteínas do nosso organismo, garantindo a qualidade de produção de todos os genes das células. Estamos falando de mais de 100 mil proteínas diferentes”, afirma o cientista-chefe da startup, Caio Leal. “A gente consegue evitar ou reduzir o risco de que as modificações epigenéticas no DNA encurtem os mRNA, que levam às enfermidades”. 

Nos estudos realizados pela biotech foram usados mais de 3 mil neurônios de pacientes saudáveis e com Alzheimer, ambos com cerca de 75 anos de idade. “Conseguimos não só rejuvenescer a célula saudável de um idoso, mas conseguimos ainda recuperar uma célula doente, devolvendo a capacidade neuronal e tornando-a saudável novamente”, comemora Rafael Bottos.

Para comprovar o feito, a equipe de cientistas analisou as sinapses das células submetidas ao medicamento da Aptah Bio. Durante 108 dias, foram feitas análises eletrofisiológicas, ou seja, que medem as propriedades elétricas de células e tecidos. “Os pesquisadores comprovaram um aumento de 40% de sinapses dos neurônios doentes”, acrescenta Caio. “Isso quer dizer que conseguimos recuperar a atividade de neurônios com Alzheimer e rejuvenescer  neurônios humanos sem nenhuma patologia”. Segundo o CEO, Rafael Bottos, a perspectiva é que com o uso ainda mais prolongado do medicamento, os resultados sejam ainda mais eficazes.  

Para um estudo comparativo, a Aptah selecionou dentro da amostra de neurônios fitas de mRNAs que produzem quatro tipos de proteínas diretamente ligadas ao desenvolvimento do Alzheimer. No paciente idoso saudável, não houve alteração significativa. Já nas células doentes houve uma recuperação do tamanho desse mRNA, deixando de produzir a forma tóxica das proteínas e recuperando sua função original. “Além disso, análises em neurônios saudáveis comprovaram que o medicamento é benéfico para as células. Nossa droga só corrige onde existe um erro, um defeito, sem impactar as células saudáveis”, explica Rafael.  

O processo de limpeza dessas células tóxicas não acontece de um dia para o outro. Isso significa que, no caso de doenças degenerativas, um tratamento futuro com essa molécula será possivelmente de uso contínuo. “A expectativa é que, além do Alzheimer, a droga criada pela Aptah Bio também seja indicada para tratar demência frontotemporal, distúrbio enfrentado pelo ator Bruce Willis, e ELA, Esclerose Lateral Amiotrófica, entre muitas outras”, completa o CEO.  

Por que rejuvenescer?

O mundo todo está mais velho. No Brasil e em outros países, a população com idade acima de sessenta anos está crescendo mais rapidamente do que os demais grupos etários. Historicamente, o número de crianças sempre foi superior ao de idosos. Porém, espera-se que em 2050 o percentual da população mundial acima de sessenta anos ultrapasse o percentual de jovens de até 14 anos, de acordo com a ONU. No Brasil, essa transição deve ocorrer já em 2030. “As pessoas querem viver mais. Mas não de qualquer jeito. A ciência busca por uma longevidade saudável”, conclui Rafael.

Essa pode ser considerada uma questão de saúde pública, já que o envelhecimento gera um custo enorme para o Estado assim como para as famílias. Em 2019, segundo relatório da Organização Mundial da Saúde, o impacto financeiro global da demência foi estimado em US$ 1,3 trilhão. O valor está projetado para aumentar para US$ 1,7 trilhão até 2030 ou US$ 2,8 trilhões, se corrigido para os aumentos nos custos do cuidado. A demência é causada por uma variedade de doenças e lesões que afetam o cérebro, como o Alzheimer, por exemplo. Compromete a memória e outras funções cognitivas, bem como a capacidade de realizar tarefas diárias.